Blog do Gutemberg Gomes

DE AMIGO PRÁ AMIGO: DIGA ALÔ COMIGO!!!

COISAS QUE VELHAS FOTOS ME CONTAM…

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Estes são textos que postei originalmente numa comunidade da minha cidade natal, Barbacena – MG.

Após visualizar essas fotos, tive a inspiração de escrever esses pequenos textos, que acabaram emocionando alguns leitores e sintetizando o espírito dessas comunidades que servem para reencontros entre pessoas e também com a história que todos temos em comum.

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Coisa estranhíssima é a saudade…
É possível sentir saudade de algo que a gente não viveu?
É possível gostar mais de um lugar depois que você sai dele?
Qual o encanto desse ´´olhar prá trás´´?
Que sentimento é esse – capaz de envolver com um brilho diferente – pessoas, lugares e coisas que amamos um dia?
Comigo acontece frequentemente…
Vejo essas fotos antigas de Barbacena (mesmo aquelas que são décadas e décadas mais antigas do que eu!) e é como se uma parte da minha vida pertencesse àquela época.
Talvez a saudade seja também uma herança genética…
Como se fosse possível herdar as emoções daqueles que vieram antes, muito antes. E se encantaram também. E se surpreenderam. E se apaixonaram por tudo aquilo que veríamos muito tempo depois…
Olhando essa foto, eu me imagino como aquele sujeito correndo, de chapéu, no canto inferior direito.
Nunca mais essa praça seria tão linda como nesse exato momento. Mas ele tinha pressa em ver o que viria depois.
Exatamente como fazemos agora. Observamos o encanto do passado, preocupados com o futuro e deixando que o presente simplesmente passe por nós…

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 Quando você olha uma foto em preto-e-branco, você é capaz de imaginar as cores que as coisas e as pessoas tinham?
Ou por acaso você tem essa dificuldade de admitir que aquele passado tão remoto poderia ser colorido?
Para você, tudo nessas fotos é irremediavelmente velho ou é possível imaginar o que representaram naquela época?
Como por exemplo, os carros – hoje peças de museu ou itens de colecionador – que deveriam assombrar pela sua novidade.
A mínima luz desses postes antigos no meio da Rua XV era a solução para o breu que havia pouco antes.
(E não questionem a inteligência dos nossos antepassados: A rua ainda não precisava suportar o caos que inauguramos décadas depois!)
Nada de prédios imensos encaixotando famílias. A ocupação nem deveria levar em conta o custo do metro quadrado.
Imagino que essa foto tenha sido tirada em um domingo à tarde. Daqueles em que até o vento parece parado.
Ainda não haviam sido inventadas as multidões que se aglomeram e se acotovelam sobre as calçadas.
Os poucos carros e as raras bicicletas ainda não disputavam espaço de maneira ameaçadora com os pedestres.
As pedras do calçamento nem sonhavam que, com o tempo, seriam sufocadas por camadas e camadas de asfalto.
E nesse modorrento domingo à tarde, essas poucas pessoas puderam observar e sentir as cores que sequer somos capazes de imaginar…

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Não me condenem. Eu estava apenas fazendo o meu trabalho.
Custou-me algum sofrimento esse olhar e esse triste registro. Ainda eram pessoas, mas havia algum tempo, tornaram-se coisas. Nesse dia, entreguei apenas 15 deles ao Hospital-Colônia de Barbacena. Sinceramente, alguns deles não me pareciam loucos. Não tinham atitudes desconexas com a realidade. Em outros, percebi o olhar triste de quem havia perdido tudo, exceto a razão.
Vinham de todas as partes, julgados e condenados pela sociedade ou pelos seus próprios familiares. Por detrás daquela porta, eles seriam apresentados a um sofrimento que muitos não mereciam. E diante desse sofrimento, e com os tratamentos dispensados pela instituição, enlouquecer de verdade logo seria a única alternativa.
Nesse grupo, todos pareciam resignados diante da situação. Um deles, que me observou durante todo o trajeto esperando talvez a chance de trocar algumas palavras, ao perceber minha intenção de fotografá-los à distância, ensaiou um sorriso e um aceno, como se despedisse de um familiar ou amigo. Foi o suficiente para que eu quase desistisse. As lembranças daquele sorriso e de tantas outras pessoas que desapareceriam muito em breve iriam acompanhar-me até os últimos instantes da minha lucidez.
Eu deveria ter guardado essas cenas apenas na minha memória. Ou como haviam me orientado, eu jamais deveria ter sequer olhado para trás…
Voltei apenas mais algumas vezes a Colônia. Sempre com essa missão de levar loucos, indigentes, tuberculosos, sifilíticos, marginais, deficientes, órfãos, homossexuais, prostitutas, rejeitados, assassinos, tarados e alguns outros tipos que sempre me pareceram absolutamente normais.
Da mesma forma que eu ainda imaginava transitar entre a razão e a loucura quando fui levado para o mesmo hospital alguns anos depois. Ainda guardava essa foto comigo. E no verso comecei a escrever fragmentos dessa história. Mas minha consciência tornou-se ainda mais vaga após os primeiros choques. Não sei dizer como tudo terminou. E quanto aos homens que nos tratavam como se fôssemos coisas, não posso condená-los. Eles estavam apenas fazendo o trabalho deles…

Gutemberg Gomes

Written by Gutemberg Gomes

03/05/2012 às 11:29

Publicado em Uncategorized

3 Respostas

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  1. OLHA SÓ COMO A RUA XV ERA…… LEGAL ESSAS FOTOS……

    • EU ME ENCAIXO NESTA HISTÓRIA DE HORROR…FIQUEI NESTE HOSPITAL DURANTE UM ANO …DOS 14 AOS 15 ANOS SEM SER LOUCA…VI TANTAS COISAS DESUMANAS QUE AINDA NEM ENTENDIA…MAS DOIA MUITO ..VELHINHAS JOGADAS NOS PÁTIOS GELADOS ALGUMAS NÚAS NO MEIO DE UM FRIO INSUPORTÁVEL..E ALÍ FICAVAM SEM O MÍNIMO DE HUMANIDADE ATÉ MORREREM …LEMBRO ..APESAR DE MINHA POUCA IDADE DE TUDO QUE VIVI ALÍ..SOLITÁRIA PRA QUEM DESSE MAIS TRABALHO..SEM COBERTORES..BANHO TÃO GELADO QUE .ERA IMPOSSÍVEL NÃO TER UMA PNEUMONIA……DEUS ..NEM SEI COMO SOBREVIVI A TUDO…..ELETRO CHOQUE PRA QUEM FUGISSE,,ERA O CASTIGO…UM HORROR…PASSEI UM ANO NO INFERNO..MEU CRIME…?FIQUEI ÓRFÃ DE PAI..E CHEGUEI NA ADOLECÊNCIA …NÃO TIVE LIBERDADE PRA NAMORAR..O CAMINHO FOI ME TIRAREM DA SOCIEDADE PRA NÃO ENVERGONHAR A FAMILIA…TINHAMOS QUE SER MOÇAS CATÓLICAS E NUNCA CHEGAR PERTO DE UM MENINO..O MÉDICO QUE ME INTERNOU DEVE ESTAR NO INFERNO…POIS GANHAVA POR CABEÇA…O INPS PAGAVA POR PESSOA QUE ELE INTERNASSE…FOSSE LOUCA OU SIMPLESMENTE SE A FAMILIA QUISESSE DESAPARECER COM ESSE FAMILIAR…..PSIQUIATRA FAMOSO POR AÍ..ONDE ELE DEVE ESTAR A ESSA HORA?NAS PROFUNDEZAS,,,DO INFERNO QUE EU VIVI….

      eny coutinho

      27/07/2012 at 21:37

  2. Olá Gutemberg.
    Enfim estou de posse do meu exemplar do Sutilezas do Amor… Olha que episódio interessante que ocorreu envolvendo o seu livro: Eu tenho um amigo que trabalha com um Sebo, próximo ao meu serviço. Sempre encomendo livros por ele, não tenho muito tempo livre para procurar nas livrarias. Assim o fiz, encomendei a ele o seu livro. Passados alguns dias o procurei e ele como é meu amigo disse a verdade que tinha andado folheando o livro e se interessado muito pelos textos. Assim, ele leu o livro todo antes de me entregar… e gostou demais. Disse que iria encomendar um para passar à esposa dele para que ela o lesse também. Veja que legal! Isso me aguçou ainda mais a vontade de ler logo o livro. Abraços.

    Carlão Azul

    28/07/2012 at 11:49


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